Se é o litoral que serve de cartão postal de Natal
para turistas, foi na beira do rio que a cidade surgiu. O bairro da
Ribeira, o primeiro da cidade, surgido às margens do rio Potengi, já foi
o reduto do comércio potiguar, de um porto com atividades intensas e
ponto de encontro da boemia natalense. Hoje, o tempo da Ribeira é outro,
e os prédios deteriorados são uma lembrança permanente de um passado
que já não existe. De três farmácias na rua Doutor Barata, hoje não
resta nenhuma no bairro inteiro. Da Samaritana, a antiga loja de tecidos
construída em um prédio imponente, resta apenas a fachada, interditada
pela Defesa Civil sob risco de cair a qualquer momento. Na Rua Chile, o
Centro Cultural Dosol, que marcou gerações da cultura alternativa da
cidade, também anunciou o encerramento de suas atividades no bairro,
revelando um cenário de abandono que vem se aprofundando dia a dia no
mais antigo bairro de Natal.
Aqueles que trabalharam e viveram por décadas no bairro, contam que a
mudança foi gradual. Em um local cujo principal propulsor sempre foi o
porto, o espaço conquistado pelo transporte rodoviário de cargas
nacionalmente representou um baque considerável. “Antes as cargas
chegavam aqui aos montes: cervejas, tecidos, peixes. Era muita coisa. A
gente descarregava os navios, e as cargas já enchiam as lojas. Quando a
água foi sendo trocada pela estrada, começamos a sentir os primeiros
baques. Hoje, só tem o que descarregar praticamente sexta, sábado e
domingo”, conta Pedro Araújo. Dos seus 76 anos de vida, 38 foram
trabalhando como estivador no porto.
Sua antiga profissão, de acordo com ele, está
desaparecendo. “Hoje em dia você pergunta o que é estivador e um menino
novo não vai saber. A gente descarregava tudo, tirava dos navios e
abastecia o comércio. Era muito movimento. Tinha ruas, como a Frei
Miguelinho, que quando dava 10 horas da manhã, não dava nem pra andar de
tanta gente”, relata o estivador aposentado. Na época que se filiou ao
Sindicato dos Estivadores, eram cerca de 120 filiados. Hoje, de acordo
com ele, o número caiu pela metade. “E a gente tem medo que caia ainda
mais com esses negócios errados que andam fazendo por aí, porque hoje o
porto vive basicamente graças às frutas”, afirma.
O “negócio errado”, ao qual Pedro se refere, foram as 3,4 toneladas de
cocaína encontradas misturadas às cargas de manga e melão, com destino à
Europa, no porto de Natal nos primeiros meses de 2019. As apreensões
feitas nesse ano fizeram com que o estado alcançasse a segunda colocação
do país em termos de quantidade de cocaína apreendida, ficando atrás
apenas no Paraná, o que preocupa aqueles que tem no porto sua
subsistência.
Não era apenas do trabalho, no entanto, que
vivia o bairro. Reduto da boemia natalense, a Ribeira era o local onde
se reuniam desde os trabalhadores do porto e do comércio, a
universitários, poetas e artistas. Hoje, a maior parte dos eventos se
concentra na rua Chile, onde fica o barracão da escola de samba Balanço
do Morro, no qual acontecem eventos esporádicos, e também outros bares,
frequentados principalmente pela juventude natalense. Os moradores mais
velhos, no entanto, sentem falta dos tempos em que, na Ribeira, os bares
eram cheios e as festas entravam pela madrugada.
“A gente sente falta, sabe? Era bom demais. Eu
fechava a loja e ia tomar uma cervejinha com os amigos aqui perto
mesmo. Aqui dava pra andar à pé às 3h da madrugada. Tinha de tudo, mas
principalmente, tinha movimento. Era seguro”, relata Aldenor Rodrigues,
de 71 anos, que há 50 trabalha no bairro, primeiro como farmacêutico,
depois na loja herdada pelo sogro, de mecânica em refrigeração.
“Já fiz muito dinheiro aqui. Hoje, quando dá uma
hora da tarde, às vezes fecho tudo por falta de movimento. Não tem nada
aqui.”, conta. A insegurança, de acordo com ele, é um dos principais
problemas do bairro, e está diretamente relacionado com o fechamento das
lojas e redução do número de pessoas que circulam após o fechamento das
poucas repartições públicas que permanecem no local.
Números
22 é o número de imóveis interditados pela defesa civil na inspeção feita em 2018
45 prédios tombados
estão marcados como imóveis de destaque, com maior nível de restrição
para intervenções determinado pelo Iphan
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